domingo, 3 de abril de 2011

SOZINHA

    E novamente ela se viu sozinha. Desta vez no sentido literal da palavra. Assim sozinha sem ninguém por perto, não o sozinha que vinha sentindo há anos. Da solidão do silêncio de palavras gritadas no meio das discussões de sempre, ou do silêncio do virar de lado e dormir com o corpo cansado do sexo ritual de sempre.

    Ritual. Sexo ritual. A mão aqui, o beijo ali, a  hora marcada, no momento exato o coito. O conter a respiração para que não fosse percebido atrás das portas, ou pelos vizinhos, ou pelos cachorros, ou por ele mesmo. Talvez não fosse culpa dele, talvez não fosse culpa dela, talvez fosse o tempo, ou talvez fosse a química, mas a química por quê? Afinal H2O sempre vai ser água.

    Sozinha. Andou pela casa como que para se certificar de que nenhuma alma vagava perdida a culpá-la ou recriminá-la com o silêncio e olhares reprovadores. Trancou-se no banheiro. O chuveiro quente, enevoava todo o ambiente criando o cenário claro e branco, úmido e quente. A água percorreu o corpo provocando o arrepio de ser tocada, por muitas mãos, incontáveis mãos, diferentes toques. Se via cercada e acariciada da suavidade do toque feminino à fúria desejosa das mãos masculinas. E se deixou levar, suas mãos buscavam o sexo encontrando somente o seu. E via muitos rostos. Todos os rostos. Viu seu próprio rosto e desejou sua boca. O corpo tenso, o quadril apertado se deu o luxo do grito que prendia na garganta nas noites quentes. Enfim, levando seus dedos à boca sentiu o seu próprio gosto.

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