domingo, 27 de fevereiro de 2011

Limite

           O carro parou de chofre, mal tive tempo de pensar antes de jogar todo o peso sobre o pedal e puxar o volante com toda força na tentativa de parar o caro mesmo que fosse no braço antes que esse atingisse a massa disforme que se jogou sobre o capô, em meio a chuva fina e a total falta de iluminação naquela avenida deserta. Só ouvi o “Bum” e o som dos pneus cantando no asfalto. A princípio pensei que pudesse ser um animal, não tinha calculado em fração de segundos que era grande demais para isso. Aparentemente não tinha atingido em cheio, acreditava ter conseguido reduzir tudo o que que era possível, mesmo assim se jogou, bateu de encontro ao para-brisas, rolou para o lado e caiu.

          Manter a calma. Manter a calma. Era o mantra que dizia a mim mesmo. Abri a porta com medo do que iria encontrar. Gente. O coração pulsava na boca, coloquei as mãos na cabeça sem saber o que fazer. Me aproximei, não muito alto,  pensei que fosse um menino por causa dos cabelos castanhos e curtinhos. Toquei-lhe o rosto e sem abrir os olhos agarrou minha mão. Imóvel. Esperei que se movesse, aos poucos foi ganhando vida, se virou. Tentou levantar, impedi, mesmo assim sentou-se. Pude ver os grandes olhos castanhos e a boca bem desenha. Uma menina linda.

          - Ei você está bem? Podia ter te matado.
          - É seria bom. Fracasso até em me matar.
       Não quis dar lição de moral, não era uma boa hora. Aparentemente nada quebrado, salvo uns esfolões nos cotovelos, enfim, viva. Peguei-a no colo, coloquei-a no banco do passageiro.
           - Melhor te levar para o hospital.
        - Não...! - Pareceu apavorada com a sugestão. - Para o hospital não.  Vão querer saber porque...
            - Mas pode ter algo sério aí.
            - Não!!! Não tem nada não. Faz o seguinte, me leve para casa.
            - Tem certeza?
          
           Ela afirmou com a cabeça, encostou a testa no vidro e dava as coordenadas sem tirar os olhos do horizonte.
       
         Dado momento indicou um prédio. Descemos. Ajudei-a. Subimos ao 4 andar. Entrou, me convidou para entrar, se sentou no sofá e ainda os olhos fixos num único ponto. Não teve mais nenhuma reação. Comecei a circular pelo apartamento, encontrei o banheiro, enchi a banheira, ela estava com as roupas úmidas e enlameadas.
      
             - Vem, toma um banho, tira essas roupas sujas.

           Não houve resposta. Fiquei olhando um tempo a total inércia. Me aproximei, ajoelhei diante dela. Nada. Nenhuma reação. Peguei-lhe um dos pés, tirei o primeiro tenis, a meia, o segundo e não houve nenhum tipo de resistência, tateei a cintura e tirei-lhe a camiseta, aos poucos tirando-lhe a carcaça de menino surgia à cada peça de roupa tirada uma mulher. Cada palmo simétrico. Um abraço encontrei o fecho do sutiã, os seios  pequenos, os mamilos me afrontavam desafiado meu auto controle. Lentamente tirei-lhe as calças e a calcinha de uma só vez, nua e estática. Levantei-me e afastei, encostei na parede a observá-la, não oferecia qualquer tipo de resistência. Tentava em vão impor resistência aos meus instintos, lembrando minha natureza, aquela que é camuflada, escondida e mascarada no dia-a-dia resguardando todas as aparências.
      
            Peguei-a no colo e levei até a banheira,   suas mãos levemente acariciaram-me a nuca, não foi necessário mais que isso para que o choque prazeroso percorresse todo o corpo instalando-se em um ponto de tensão. Parado no corredor com aquela desconhecida nua em meus braços sem reação ao toque sútil dos dedos enfiados nos meus cabelos e a cabeça apoiada em meu peito. Rumei ao banheiro e a mergulhei na água. Seu rosto aos poucos tomavam cor. As mãos passearam lentamente pelo corpo, os seios couberam-me na mão os mamilos pequenos acariciaram a palma da mão em resposta ao toque suave. No umbigo o arfar lento começaram a marcar o ritmo do desatino. Ante as respostas involuntária do corpo à natureza ela ainda apática, uma estátua de sal a ser despertada.

          Pego num duelo entre a culpa e o prazer de enfrentar a medusa,  ela não devia  despertar o animal preso no homem. Pequei com força as coxas marcando no ímpeto os dedos na carne branca, ela somente fechou os olhos, alisei todo o corpo, livrando-o da sujeira do asfalto. O deslizar por sua pele sem resistência me ensandeceu. Deixei do papel de bom samaritano para algoz. Afastei-me dela, queria olhar, de uma beleza ímpar,  como pude confundir com um menino?
     
           Não tenho a mínima noção de quanto tempo fiquei observando até que abriu os olhos,  Batalha declarada. Livre das roupas  tirei-a da banheira com o olhar pregado em mim. As bocas se invadindo. Esgrima.
    
          Sem trégua. Sobre a cama percorrendo o corpo. As mãos sem bússolas. A fúria nas veias. Como gata no cio seu lamento ecoava pelas paredes.  Guerra ganha quando penetrei suas terras, jogou o corpo para trás aproximando meu corpo num enlaçar de pernas.  Respirar, respirar. Limiar.  Prazer no desconhecido. Indescritível no inusitado, pelo não autorizado, quando me dei conta de que todo poder era dela, sua fragilidade me pegou pelas pernas me arrastando por caminhos que até então condenava.
        
         Vencido pelo cansaço. Ela dormia. Ressonava, tranquila, leve, como se tivessem ali consumado a noite de núpcias. Jamais teria novamente aquele sabor de desespero como se a vida terminaria ali. Antes de sair deixei sobre o travesseiro o bilhete.
        
           “Se quiser ser atropelada novamente me liga”
          

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