quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Sem volta.

           
"O passado não reconhece o seu lugar: esta sempre presente".
Mário Quintana

          

          Acordou. Ainda não era dia. Sentia o calor dela a seu lado na cama, adormecida. Ainda na escuridão do quarto podia desenhar mentalmente cada traço do seu corpo.
          Mesmo durante todos os anos que separaram em tempo e distancia os corpos,  se reconheceram instantaneamente. Mesmo nunca tendo sentido seus pesos  se suportaram suavemente. A lembrança da boca quente em seu pescoço juvenil e a proximidade da mesma boca hoje madura, tal fruta no pé, tal como há algumas horas atrás, a mesma boca não mais descobrindo hoje faminta. A língua da menina que mal sabia os caminhos da sua hoje contornava com maestria seus lábios incitando sensações desconhecidas.
        Levantou-se sem fazer barulho, ouviu o suspiro mais profundo vindo dela quando seu peso deixava o colchão, caminhou até a janela e a abriu sem ruído, queria ver o dia amanhecendo no rosto dela, o despertar lento podendo assim observar as variações de cores até o amanhecer em seus olhos.
           Nua. Como se nada um dia tivesse tocado aquela pele, nem mesmo o vestido florido que jazia no chão do quarto e as sandálias uma na porta outra à beira da cama. Esses subterfúgios não lhe cabiam mais, nem o carro que a trouxera de tão longe, quando ao desligar do telefone ela lhe disse: “Te pego aí em 2 horas, me espere.” . Ela não esperou ouvir resposta, não o esperou protelar, não o esperou argumentar, não o esperou dizer não. Ela que sempre esperou, dessa vez não. Desligou o telefone coberto de dúvidas, morrendo de medo. Desceu as escadas cheio de dúvidas, coberto de medo. Viu o carro estacionado em frente ao portão do outro lado da rua vivendo o medo, roendo as dúvidas. Atravessou a rua esvaindo as dúvidas, contendo o medo. Abriu a porta do carro e a olhou pleno de certeza certo do seu destino.
          Mulher. A menina tinha se perdido em algum ponto do passado. O silêncio no carro só quebrado pela presença do perfume dela, era parte do ambiente, como se sem ele não existisse ar.
           “ Acho que precisamos disso. Merecemos isso. Me diz onde.”  Apontou a frente, ela ligou o carro e seguiu. Deu as coordenadas do hotel. No quarto ela tirou as sandálias e caminhou descalça até a cama, sentou do seu lado e ficaram em silencio, havia um abismo de tempo entre os dois. Ela estendeu a mão e posou sobre a dele. Instintivamente tirou, como que mordido por algum bicho, o toque foi quase dor. O passado percorrendo as veias, veneno queimando as entranhas. Ela sentiu como recusa, suspirou o suspiro mais profundo e se levantou para sair.
         Ela se ressentiu e ele sabia que se  passasse por aquela porta não voltaria. Agarrou seu pulso, prendendo-se a ela não conseguiu mais se libertar. O olhava séria, seus olhos escuros labirintos. Lutou guerreiro contra si, fadado ao destino conhecido desde sempre, morrer afogado em seus lábios. Seu medo justificado na certeza de não existir retorno. Fim da linha.  Derrotado. Toda estabilidade naufragada, somente o regaço do seu seio eram agora porto seguro.
       
        Tomado de forças que desconhecia tirou as alças do vestido que escorregou pelo corpo revelando a mulher que ela tinha se tornado longe dele, maldisse todos os anos passados sem sentir o cheiro da sua pele, sem sentir o peso dos seios em suas mãos e os mamilos pequenos em sua boca.  Ela gritava sussurros em revelia a todos os anos de espera, se entregava sem resistência alguma. Clara e transparente. Sem o tempo não tinham mais o espaço. Só reconheciam a voz dos caprichos do desejo e respondiam com suas línguas se reencontrando. Falavam a mesma língua, sentiam a mesma fome, clamavam o mesmo instinto. Homem e mulher, yin e yang, claro e escuro, falo e orquídea. Os corpos chamam. Os dedos dele mergulhavam em águas quentes num aconchego abraço enquanto ela explorava seu membro sentindo todas as variações do toque, latente. Ele a levantou pelos quadris a penetrando lentamente enquanto desprendia da garganta  o  grito da espera,  das dores vividas e das correntes que o prenderia.  Atada a seu corpo os movimentos perfeitos denunciavam a cumplicidade dos corpos no dialéto somente conhecido sob lençóis, sobre a cama, sobre a química, os suores e os gozos. A sincronia numa explosão de prazer incomunicável, exaustos dormiram.
            O carro parou no mesmo lugar. Já não eram os mesmos.
            Ela o olhou e em seus olhos uma pergunta. O beijo uma resposta. Não tinha mais volta.
           

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