segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Amor depois do Amor




         Sem dúvida já era dia. Não tinha como precisar horário exato, engraçado como esses lugares são estratégicamente projetados para enganar os sentidos, todos os sentidos. Não sabia as horas, se fazia frio, tudo conspirava para ilusão de que o tempo não passa.  Os espelhos projetavam todos os movimentos, refletidos em cada ângulo, com todos os detalhes de luzes e sombras. As luzes indiretas, meia luz, música, o vinho sobre a mesinha e suas taças com fundos magenta denunciando o entorpecimento anterior. Dia, sem dúvida já era dia.
        Virou-se um pouco na cama e sentiu seu corpo cansado. Olhando para cima viu seu corpo nú sozinho, nesse ambiente essa visão era desoladora, deveria ser proibido olhar o corpo despido sozinho entre lençóis de cetim refletido no espelho, como se a visão da nudez só fosse completa se os corpos estivessem entrelaçados.
        O único som vinha do banheiro, água. Teve o cuidado de se levantar sem acordá-la.  O que a havia levado até lá? Perdeu a cabeça? Estaria louca? Não conseguiu dizer não. Não conseguia dizer não, não para ele e sim para ela mesma.  Era para ser só uma noite sozinha, como tantas outras. Dessa vez resolveu ver um filme sozinha, como tantos outros. Jantar na praça de alimentação no shopping, como tantas vezes. Onde estaria com a cabeça?
        Os trailers já estavam sendo exibidos quando ele entrou, um sobressalto, quando a mão tocou seu braço. Sacudida com o timbre da voz: “Posso me sentar aqui?” Não esperou a resposta, talvez o algo nela denunciasse a solidão. O filme começou, ele olhou para ela e sorriu, um sorriso condescendente de quem garantia que estava tudo bem. O braço descansando no apoio do assento roçou no dela várias vezes, na última ela não se moveu, assim como não moveu quando os joelhos também se tocaram, permitiu que o choque caminhasse pelas veias. O perfume que desprendia dele, passeava pelas narinas se alojando no estômago.
        Uma fita francesa, adorava filmes franceses, a poesia no subjetivo. Só via esses filmes sozinha, subjetivo. Um pouco de poesia no cotidiano.  O dia-a-dia era bom, garantia que tudo corresse bem, garantia que tudo estava no devido lugar, até as viagens do marido faziam parte desse cotidiano, assim como o retorno. Mas a beleza... Tinha paixão pela beleza das pequenas coisas, dos devaneios perdidos no final de tarde laranja, coisas que só ela via, uma palavra terna no telefone inesperadamente durante o dia, ou um email dizendo que sentia sua falta, ou simplesmente apoiar a cabeça no peito e comentar a beleza da passagem do livro que estava lendo. Essas e todas as outras detalhes que  faziam parte somente do seu mundo imaginário.
       Em determinada cena, algo triste e ele olhou para ela, esperava surpreende-la chorando. Um olhar faminto, assim o definiu. Ele tinha “olhos famintos”. Surpreendeu-o com um leve sorriso quando ele esperava o pranto, a recordação da expressão que criara para definir pessoas com olhos inteligentes, um olhar de quem tinha muito a dizer a fez sorrir. Esse tipo de olhar era raro, era o tipo de olhar que a calava. Olhos grandes, emoldurados por cílios espessos, escuros e profundos, tão profundos quanto à fome que neles continha. O rapaz voltou os olhos para a tela, fugiu do sorriso.
        Viu-se analisando o perfil. Nariz reto, barba. “Todos os homens deveriam ter barba.”. Era incapaz de confessar mas barba era um fetiche. O marido não gostava de barba. Subiu a manga da blusa até um pouco acima do cotovelo, assim deixando a pele nua roçar no antebraço dele quando apoiou também o braço no apoio. Ele não retirou o braço. Ajeitou a perna que comprimiu um pouco mais contra a dela que também não a retirou.
          Mais para o final do filme as lágrimas corriam involuntariamente pelo seu rosto, não pela dor do personagem, não pelo momento do filme, talvez por ela mesma. Talvez pela beleza do momento em estar oferecendo e sendo aceita, simplesmente aceita, sem nenhuma condição, convenção, formulação ou pré-requisito.  Pega nesse flagra, as lágrimas não podiam mais ser contidas, rompeu as barreiras e a inundou. Chorou copiosamente. Sentiu os dedos fortes passando levemente em seus olhos, cuidadosos. E os olhos famintos dizendo que estava tudo bem. Passou o braço sobre os ombros dela e a trouxe para si, deixando-a chorar o que tivesse para chorar.
          Quando as letras subiam na tela e as luzes foram acesas ele se levantou, olhou para ela que abria a bolsa em busca do espelho para tentar se recompor, não esperava que ele a esperasse. Olhou para cima e lá estava, alto tal qual um deus grego sob um pedestal. “Está com fome?". Saíram do cinema e já na praça de alimentação, depois dos pedidos, se viu surpresa ante a pergunta:
          "Qual o seu nome?". – Porque a pergunta agora já que havia tanta intimidade entre eles? Conheciam-se desde sempre.
          "Ana" mentiu. Porque mentiu? Mentiu porque talvez tivesse de ser assim, porque não era uma mentira, era apenas outra realidade. Conversaram sobre o filme, conversaram sobre o que ela achava, bebeu devagar cada palavra que ele dizia a respeito do que ele pensava. Descobriu que ele leu os mesmos autores que ela, viu as mesmas nuances. Agarrava-se aos fios invisíveis do tempo tentando conter o avanço e manter o momento.
        "Tenho de ir." Disse.
        "Está de carro? Posso te levar?"
        Abandonou tudo que conhecia a respeito de prudência. Aceitou a carona, aceitou o desvio, aceitou o acaso. Ele conduzia tudo. Conduzia cada situação, gostava disso, não ter que decidir só aceitar. Aceitar o que queria, pois ele a conduzia em direção a tudo que desejava.
       Desejou as mãos, desejou o corpo. Desejou quando lentamente ele tirou cada peça da sua roupa a olhando nos olhos, faminto. Desejou o olhar faminto. O corpo faminto. A imagem refletida no teto daquele homem possuindo seu corpo passivo aos seus desejos. Abandonou-se aos caprichos daquele desconhecido, numa deliciosa violência ao seus preceitos morais. Assim abandonada não sentia culpa. A culpa não era dela, nem dele, o culpado era o abandono.
       Quase morte. Um gozo de morte. Diversas mortes. Diversos gozos.
      
       Exausta numa luta desigual entre o corpo e a razão, entre braços, cheiros e pêlos, o beijos, os membros e a noite que chegava ao fim, dormiu. Um sono sem sonhos, nem pesadelos, só o alívio do cansaço.
       Era dia. Sem dúvida agora era dia. O som do chuveiro. Doía-lhe deixar as recordações desses momentos de posse de seu próprio corpo, dessa mulher desconhecida, adormecida. Era hora.
       Ligou para o serviço de táxi. Deixou algum dinheiro debaixo da taça de vinho, fechou a porta atrás de si. Era Cecília.

(Amor depues del amor - Fito Paez)

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Feliz Aniversário

    Eram vizinhos a tempo suficiente. Eram próximos o suficiente. E decididamente já estavam distantes por tempo suficiente.
    Se encontravam quase todos os dias no elevador. Suas vozes só se encontravam em breves "Bom dia"s. O que compartilhavam era os cheiros que se misturavam no cubículo. Muito provávelmente ele não notou que seu olhar perdido à frente na verdade o observava. Tampouco percebeu quantas vezes veladamente foi despido peça a peça de roupa naquele olhar disfarçado.  Também não há de ter percebido que seus lábios formigavam e levemente inchavam chamando a boca que invariávelmente falava ao telefone. Não há ter percebido o prelúdio de prazer que seus mamilos anunciávam apontando debaixo das pequenas  flores do seu vestido. Nem que os pêlos dos suas costas e nuca se eriçavam quanto a proximidade dos corpos quando ele lhe dava a passagem para a saída e falava às suas costas. Alguns minutos separavam os corpos.
    Encontro as cegas (para ele). Era certo que aceitara o convite por curiosidade de se saber desejado. Ia sem saber para onde e ela se excitava com a indisfarçável euforia inquieta que o impelia para braços desconhecidos. No bilhete somente o endereço e o número do quarto de um motel num papel levemente perfumado. Notou que dessa vez o seu cheiro foi notado, talvez pelo cio ou pela semelhança com o bilhete.
    Seguirarm lado a lado em silêncio sem a interferência da conversa paralela ao telefone. Se separaram na garagem. Abriraram os respectivos carros, antes de entrar ele a olhou com um leve sorriso de despedida nos lábios. E seguiu para seu destino incerto.   
    Ele chegou primeiro como o previsto. Um bilhete com o mesmo perfume sobre a cama dizia: "Não acenda as luzes." O som da porta se abrindo o sobressaltou. Percebia a presença que não via. Ela parou à porta ele percebia às cegas. Caminhou diretamente à cama como que conhecesse cada milímetro preenchendo o quarto com o cheiro de fêmea. Estendeu as mãos, encontrou as coxas nuas, frescas. Subiu as mãos e encontrou os quadris nús estreitos, macios. Nua. Seus dedos deslisaram por vales desconhecidos, encontrar a delta de Vênus.     Totalmente nua.
    Na escuridão seus olhos nas palmas das mãos conheciam o corpo, descobriam desejado. Descobriam anunciado e o olfato denunciava a proximidade. As pernas o envolviam pela cintura e moviam o corpo pelos caminhos do pecado mais perfeito. Luxúria.  A língua só sentia o gosto da boca, as ondulações dos seios e o conforto dos mamilos no céu da boca.
    Ao sentir o membro vibrar com a frêmito do gozo o recebia tensa enquanto os lábios roçando ao ouvido disse numa voz suave e sussurrada, "Feliz Aniversário".
    Começaram o dia no mesmo elevador, porém, ele abriu a porta ao lado.

domingo, 3 de abril de 2011

SOZINHA

    E novamente ela se viu sozinha. Desta vez no sentido literal da palavra. Assim sozinha sem ninguém por perto, não o sozinha que vinha sentindo há anos. Da solidão do silêncio de palavras gritadas no meio das discussões de sempre, ou do silêncio do virar de lado e dormir com o corpo cansado do sexo ritual de sempre.

    Ritual. Sexo ritual. A mão aqui, o beijo ali, a  hora marcada, no momento exato o coito. O conter a respiração para que não fosse percebido atrás das portas, ou pelos vizinhos, ou pelos cachorros, ou por ele mesmo. Talvez não fosse culpa dele, talvez não fosse culpa dela, talvez fosse o tempo, ou talvez fosse a química, mas a química por quê? Afinal H2O sempre vai ser água.

    Sozinha. Andou pela casa como que para se certificar de que nenhuma alma vagava perdida a culpá-la ou recriminá-la com o silêncio e olhares reprovadores. Trancou-se no banheiro. O chuveiro quente, enevoava todo o ambiente criando o cenário claro e branco, úmido e quente. A água percorreu o corpo provocando o arrepio de ser tocada, por muitas mãos, incontáveis mãos, diferentes toques. Se via cercada e acariciada da suavidade do toque feminino à fúria desejosa das mãos masculinas. E se deixou levar, suas mãos buscavam o sexo encontrando somente o seu. E via muitos rostos. Todos os rostos. Viu seu próprio rosto e desejou sua boca. O corpo tenso, o quadril apertado se deu o luxo do grito que prendia na garganta nas noites quentes. Enfim, levando seus dedos à boca sentiu o seu próprio gosto.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Limite

           O carro parou de chofre, mal tive tempo de pensar antes de jogar todo o peso sobre o pedal e puxar o volante com toda força na tentativa de parar o caro mesmo que fosse no braço antes que esse atingisse a massa disforme que se jogou sobre o capô, em meio a chuva fina e a total falta de iluminação naquela avenida deserta. Só ouvi o “Bum” e o som dos pneus cantando no asfalto. A princípio pensei que pudesse ser um animal, não tinha calculado em fração de segundos que era grande demais para isso. Aparentemente não tinha atingido em cheio, acreditava ter conseguido reduzir tudo o que que era possível, mesmo assim se jogou, bateu de encontro ao para-brisas, rolou para o lado e caiu.

          Manter a calma. Manter a calma. Era o mantra que dizia a mim mesmo. Abri a porta com medo do que iria encontrar. Gente. O coração pulsava na boca, coloquei as mãos na cabeça sem saber o que fazer. Me aproximei, não muito alto,  pensei que fosse um menino por causa dos cabelos castanhos e curtinhos. Toquei-lhe o rosto e sem abrir os olhos agarrou minha mão. Imóvel. Esperei que se movesse, aos poucos foi ganhando vida, se virou. Tentou levantar, impedi, mesmo assim sentou-se. Pude ver os grandes olhos castanhos e a boca bem desenha. Uma menina linda.

          - Ei você está bem? Podia ter te matado.
          - É seria bom. Fracasso até em me matar.
       Não quis dar lição de moral, não era uma boa hora. Aparentemente nada quebrado, salvo uns esfolões nos cotovelos, enfim, viva. Peguei-a no colo, coloquei-a no banco do passageiro.
           - Melhor te levar para o hospital.
        - Não...! - Pareceu apavorada com a sugestão. - Para o hospital não.  Vão querer saber porque...
            - Mas pode ter algo sério aí.
            - Não!!! Não tem nada não. Faz o seguinte, me leve para casa.
            - Tem certeza?
          
           Ela afirmou com a cabeça, encostou a testa no vidro e dava as coordenadas sem tirar os olhos do horizonte.
       
         Dado momento indicou um prédio. Descemos. Ajudei-a. Subimos ao 4 andar. Entrou, me convidou para entrar, se sentou no sofá e ainda os olhos fixos num único ponto. Não teve mais nenhuma reação. Comecei a circular pelo apartamento, encontrei o banheiro, enchi a banheira, ela estava com as roupas úmidas e enlameadas.
      
             - Vem, toma um banho, tira essas roupas sujas.

           Não houve resposta. Fiquei olhando um tempo a total inércia. Me aproximei, ajoelhei diante dela. Nada. Nenhuma reação. Peguei-lhe um dos pés, tirei o primeiro tenis, a meia, o segundo e não houve nenhum tipo de resistência, tateei a cintura e tirei-lhe a camiseta, aos poucos tirando-lhe a carcaça de menino surgia à cada peça de roupa tirada uma mulher. Cada palmo simétrico. Um abraço encontrei o fecho do sutiã, os seios  pequenos, os mamilos me afrontavam desafiado meu auto controle. Lentamente tirei-lhe as calças e a calcinha de uma só vez, nua e estática. Levantei-me e afastei, encostei na parede a observá-la, não oferecia qualquer tipo de resistência. Tentava em vão impor resistência aos meus instintos, lembrando minha natureza, aquela que é camuflada, escondida e mascarada no dia-a-dia resguardando todas as aparências.
      
            Peguei-a no colo e levei até a banheira,   suas mãos levemente acariciaram-me a nuca, não foi necessário mais que isso para que o choque prazeroso percorresse todo o corpo instalando-se em um ponto de tensão. Parado no corredor com aquela desconhecida nua em meus braços sem reação ao toque sútil dos dedos enfiados nos meus cabelos e a cabeça apoiada em meu peito. Rumei ao banheiro e a mergulhei na água. Seu rosto aos poucos tomavam cor. As mãos passearam lentamente pelo corpo, os seios couberam-me na mão os mamilos pequenos acariciaram a palma da mão em resposta ao toque suave. No umbigo o arfar lento começaram a marcar o ritmo do desatino. Ante as respostas involuntária do corpo à natureza ela ainda apática, uma estátua de sal a ser despertada.

          Pego num duelo entre a culpa e o prazer de enfrentar a medusa,  ela não devia  despertar o animal preso no homem. Pequei com força as coxas marcando no ímpeto os dedos na carne branca, ela somente fechou os olhos, alisei todo o corpo, livrando-o da sujeira do asfalto. O deslizar por sua pele sem resistência me ensandeceu. Deixei do papel de bom samaritano para algoz. Afastei-me dela, queria olhar, de uma beleza ímpar,  como pude confundir com um menino?
     
           Não tenho a mínima noção de quanto tempo fiquei observando até que abriu os olhos,  Batalha declarada. Livre das roupas  tirei-a da banheira com o olhar pregado em mim. As bocas se invadindo. Esgrima.
    
          Sem trégua. Sobre a cama percorrendo o corpo. As mãos sem bússolas. A fúria nas veias. Como gata no cio seu lamento ecoava pelas paredes.  Guerra ganha quando penetrei suas terras, jogou o corpo para trás aproximando meu corpo num enlaçar de pernas.  Respirar, respirar. Limiar.  Prazer no desconhecido. Indescritível no inusitado, pelo não autorizado, quando me dei conta de que todo poder era dela, sua fragilidade me pegou pelas pernas me arrastando por caminhos que até então condenava.
        
         Vencido pelo cansaço. Ela dormia. Ressonava, tranquila, leve, como se tivessem ali consumado a noite de núpcias. Jamais teria novamente aquele sabor de desespero como se a vida terminaria ali. Antes de sair deixei sobre o travesseiro o bilhete.
        
           “Se quiser ser atropelada novamente me liga”
          

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Um whisky por favor

  A princípio não sabia identificar, havia algo nele que o diferenciava dos demais. Em meio a toda aquela confusão, vozes alteradas pelo teor alcoólico dos presentes. Talvez aquele deslocamento ou o ar de desamparo. Ficou ali no canto da sala observando seus gestos. As mãos inquietas, uma certa impaciência contida, os olhos observadores, tão observadores que encontraram  os dela, imediatamente desviou. Divertiu-se com isso, insistiu com o  jogo.
        Alguém se aproximou dele obstruindo seu campo de visão, circulou entre os presentes, tentando não perde-lo de vista. Não percebeu quando alguém encheu novamente seu copo. Instintivamente bebeu. Passou os olhos novamente pelo salão não o encontrou onde estava. Pediu licença e circulou. E lá estava ele, num círculo rindo de algo engraçado dito por alguém. Os olhos encontraram-se novamente, desta vez ele sustentou o olhar “uma vez é acaso duas ....” - pensou. Respondeu o que alguém lhe perguntava com os olhos pregados nela e um leve sorriso malicioso nos lábios.

        Muita bandeira.

      Mais uma vez o copo estava quase cheio. Aquele barulho a estava  incomodando. Os pés começavam a doer pelo peso do corpo sobre o salto. Sentia-se um pouco entorpecida pelo álcool. O lounge vazio era um alento com sua semi escuridão, tirando os olhos escuros que a seguiam não havia mais nada de interessante naquela festa, não conhecia ninguém, todos só falavam de trabalho. Buscava na bolsa o celular quando ouviu o sussurro com um leve roçar de barba lhe causou um arrepio que percorreu todo o corpo. “ Vambora?”

      De perto os olhos dele eram ainda mais escuros e tímidos camuflados pelas  lentes dos óculos, porém, inegavelmente famintos.

       “ Agora?”
       “ Agora.”

       Ela gostava do seu silencio. O silencio contido de quem tem muito a dizer. Seguiram em assim, até seu hotel. Chegando abriu a porta para sair e aqueles olhos disseram tudo. Ela sorriu e ele a acompanhou. A chave deu a primeira volta na fechadura e a mão tocou de leve sua cintura, podia sentir o calor emanado do corpo dele  em suas costas. Trouxe-a para si sem resistência enquanto afundava o rosto em seus cabelos. Um leve rebolado anunciou o encaixe perfeito no contorno dos quadris. A porta se abriu e os corpos se encontravam e se enroscavam num balé perfeito ensaiado no primeiro encontro dos olhos. Tomou uma das mãos dele indicou-lhe o caminho, nua sob o vestido, sem barreiras os dedos encontraram quente abrigo, o prazer anunciado escorregando lentamente enquanto o gemido lhe correu as entranhas. Livrou-se das roupas desajeitadamente na ânsia de não perder um só segundo do prazer que fervia em ambos. Virou-a contra  a parede, levantou-lhe o vestido e os corpos sabiam instintivamente o que fazer. O ondular dos quadris dela marcavam o ritmo, rebolando hora numa desenfreadamente, hora lentamente retardando o gozo eminente. Ele a agarrou pelos cabelos e experimentando então a entrega com um grito fugitivo  enquanto a inundava com o seu prazer. Exauridos de silencio.

       Ela gostava do seu silencio. Silencio do que não precisava ser dito. Se entendiam. Se adivinhavam. Exploravam. Os olhos famintos. E a senha...


           “Vambora?”

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Sem volta.

           
"O passado não reconhece o seu lugar: esta sempre presente".
Mário Quintana

          

          Acordou. Ainda não era dia. Sentia o calor dela a seu lado na cama, adormecida. Ainda na escuridão do quarto podia desenhar mentalmente cada traço do seu corpo.
          Mesmo durante todos os anos que separaram em tempo e distancia os corpos,  se reconheceram instantaneamente. Mesmo nunca tendo sentido seus pesos  se suportaram suavemente. A lembrança da boca quente em seu pescoço juvenil e a proximidade da mesma boca hoje madura, tal fruta no pé, tal como há algumas horas atrás, a mesma boca não mais descobrindo hoje faminta. A língua da menina que mal sabia os caminhos da sua hoje contornava com maestria seus lábios incitando sensações desconhecidas.
        Levantou-se sem fazer barulho, ouviu o suspiro mais profundo vindo dela quando seu peso deixava o colchão, caminhou até a janela e a abriu sem ruído, queria ver o dia amanhecendo no rosto dela, o despertar lento podendo assim observar as variações de cores até o amanhecer em seus olhos.
           Nua. Como se nada um dia tivesse tocado aquela pele, nem mesmo o vestido florido que jazia no chão do quarto e as sandálias uma na porta outra à beira da cama. Esses subterfúgios não lhe cabiam mais, nem o carro que a trouxera de tão longe, quando ao desligar do telefone ela lhe disse: “Te pego aí em 2 horas, me espere.” . Ela não esperou ouvir resposta, não o esperou protelar, não o esperou argumentar, não o esperou dizer não. Ela que sempre esperou, dessa vez não. Desligou o telefone coberto de dúvidas, morrendo de medo. Desceu as escadas cheio de dúvidas, coberto de medo. Viu o carro estacionado em frente ao portão do outro lado da rua vivendo o medo, roendo as dúvidas. Atravessou a rua esvaindo as dúvidas, contendo o medo. Abriu a porta do carro e a olhou pleno de certeza certo do seu destino.
          Mulher. A menina tinha se perdido em algum ponto do passado. O silêncio no carro só quebrado pela presença do perfume dela, era parte do ambiente, como se sem ele não existisse ar.
           “ Acho que precisamos disso. Merecemos isso. Me diz onde.”  Apontou a frente, ela ligou o carro e seguiu. Deu as coordenadas do hotel. No quarto ela tirou as sandálias e caminhou descalça até a cama, sentou do seu lado e ficaram em silencio, havia um abismo de tempo entre os dois. Ela estendeu a mão e posou sobre a dele. Instintivamente tirou, como que mordido por algum bicho, o toque foi quase dor. O passado percorrendo as veias, veneno queimando as entranhas. Ela sentiu como recusa, suspirou o suspiro mais profundo e se levantou para sair.
         Ela se ressentiu e ele sabia que se  passasse por aquela porta não voltaria. Agarrou seu pulso, prendendo-se a ela não conseguiu mais se libertar. O olhava séria, seus olhos escuros labirintos. Lutou guerreiro contra si, fadado ao destino conhecido desde sempre, morrer afogado em seus lábios. Seu medo justificado na certeza de não existir retorno. Fim da linha.  Derrotado. Toda estabilidade naufragada, somente o regaço do seu seio eram agora porto seguro.
       
        Tomado de forças que desconhecia tirou as alças do vestido que escorregou pelo corpo revelando a mulher que ela tinha se tornado longe dele, maldisse todos os anos passados sem sentir o cheiro da sua pele, sem sentir o peso dos seios em suas mãos e os mamilos pequenos em sua boca.  Ela gritava sussurros em revelia a todos os anos de espera, se entregava sem resistência alguma. Clara e transparente. Sem o tempo não tinham mais o espaço. Só reconheciam a voz dos caprichos do desejo e respondiam com suas línguas se reencontrando. Falavam a mesma língua, sentiam a mesma fome, clamavam o mesmo instinto. Homem e mulher, yin e yang, claro e escuro, falo e orquídea. Os corpos chamam. Os dedos dele mergulhavam em águas quentes num aconchego abraço enquanto ela explorava seu membro sentindo todas as variações do toque, latente. Ele a levantou pelos quadris a penetrando lentamente enquanto desprendia da garganta  o  grito da espera,  das dores vividas e das correntes que o prenderia.  Atada a seu corpo os movimentos perfeitos denunciavam a cumplicidade dos corpos no dialéto somente conhecido sob lençóis, sobre a cama, sobre a química, os suores e os gozos. A sincronia numa explosão de prazer incomunicável, exaustos dormiram.
            O carro parou no mesmo lugar. Já não eram os mesmos.
            Ela o olhou e em seus olhos uma pergunta. O beijo uma resposta. Não tinha mais volta.